Jaime Pinsky

20 de outubro de 2017 | 7:00

Sujeira não se esconde – Jaime Pinsky

Pelas regras vigentes no Brasil, os eleitos – sejam para cargos legislativos ou executivos –, são representantes do povo. Aqui não há democracia direta, nem poderia haver. Afinal, não estamos em Atenas: lá cada um tinha direito a voz e voto para decidir questões fundamentais em uma praça (a Ágora). Por outro lado, a democracia grega não incluía mulheres, nem estrangeiros, muito menos escravos, embora os cidadãos resolvessem tudo pessoalmente, não através de representantes. Estes se tornaram necessários em estruturas urbanas maiores, como Roma, e essenciais em aglomerações urbanas mais complexas, como as que temos hoje em dia. Seria inconcebível imaginar todos os cidadãos brasileiros, ou paulistas, ou mesmo paulistanos opinando e deliberando em um espaço comum. O fato é que, nos nossos dias, para a prática democrática, representantes não são apenas desejáveis, são fundamentais.

Por outro lado, é indiscutível a descrença que se apossou do povo brasileiro com relação aos seus representantes atuais. Há mesmo idiotas que suspiram pela volta de uma ditadura militar, demonstrando uma assustadora falta de conhecimento histórico, uma vez que um governo desse tipo vem sempre acompanhado de restrição de liberdades, censura de todos os tipos, violência, autoritarismo, perda de direitos fundamentais. Contudo, o simples fato de haver quem peça um retorno dos militares ao poder mostra claramente o grau de insatisfação popular com relação aos seus representantes.

Alternativa: escolher melhor daqui a um ano, quando teremos eleições. Não vender votos em troca de promessas vãs. Investigar quem é aquele camarada de roupa chique e sorriso pasteurizado, que apareceu no seu bairro tomando café e comendo coxinha na padaria. E depois acompanhar a atuação do seu representante e verificar se ele mereceu o voto depositado. Democracia se constrói assim. De resto, prefiro sujeira à mostra à imundície atirada para baixo do tapete, como foi prática neste país nos últimos 500 anos.

Jaime Pinsky
Historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto.