Roberto Romano

28 de agosto de 2017 | 13:45

Para pensar a crise – Roberto Romano

André Leroi-Gourhan, grande etnólogo do século 20,  mostra que nosso corpo é produto de nossa técnica. Desde o princípio vivemos em tecnosfera. Moldamos nosso organismo dos pés à caixa craniana, o que possibilitou as técnicas de manipulação e a linguagem. Mas o principal é que o corpo, base da ética, se prolonga no universo dos objetos técnicos. Cada sociedade inventa sua técnica ao emprestar traços de outras sociedades. Só inventa, quem se torna competente para emprestar. A técnica é krisis, decisão.

O mesmo para a ética. Uma cultura presa em si mesma, sem choques com outras, nada acrescenta no trato com a natureza e consigo mesma. A crise é essencial para a sobrevivência, a técnica e a ética. Para os médicos dos tratados hipocráticos (fonte das nossas formas éticas), a crise da doença é o momento em que ainda não foi vencida a moléstia (a morte pode vir) e já surgem sinais da saúde. Tudo depende da perícia  do médico e das forças que se chocam no corpo adoecido. Na ética, ficar na indecisão sem usar medidas técnicas para sair da crise, é aceitar o desaparecimento. Mas apressar o fim da crise antes do tempo pode ser desastroso. Esta é a lição política ensinada de Platão a Maquiavel. Trata-se do kayrós, o tempo oportuno. Para solucionar uma crise ética, devemos saber qual o instante certo para decidir. Um minuto antes, um minuto depois, pode ser a ruína da sociedade ou do Estado.

A ética brasileira surge do absolutismo, que nega a democracia (pensemos na prerrogativa de foro). Aqui reinou por tempo demasiado a desconfiança diante das conquistas políticas mundiais. Basta ver o ódio votado à liberdade de imprensa, o veto às oposições, o conúbio entre público e privado. Emprestamos alguns elementos da mundialização técnica e ética. Mas nos tornamos incapazes de inventar novas técnicas ou éticas, o que não nos assegura futuro invejável. Se persistirmos sob uma forma de governo anacrônica (dos operadores do Estado, que agem como se não devessem prestar contas ao “cidadão comum”), setores de nossa ética serão ainda mais fossilizados.

As crises brasileiras deixam de ser desafios de vida, pois anunciam a morte. Somos condenados à admiração popular diante dos que “roubam, mas fazem”. Tal complacência é preparada com ardilosidade, e tem como datas principais as mesmas que indicam a gênese do Estado absoluto, regime do qual surgiu o nosso poder público. Para atenuar a corrupção inerente a semelhante poder, urge lutar pela democracia, ameaçada no mundo inteiro e, particularmente, no Brasil, terra onde ela é frágil. Aqui, mais do que em outros países, é preciso inventar, com técnica acurada, uma nova sociedade e um novo Estado. Que o Instituto Não Aceito a Corrupção nos ajude a conseguir, pelo menos em parte, tal nobre objetivo.

Roberto Romano

Professor titular de Ética da Unicamp.