Instituto Não Aceito Corrupção

Associação civil, apartidária e sem fins lucrativos.

23 de fevereiro de 2021 | 11:44

Os desafios e as corrupções acadêmicas na educação a distância

Pequenos desvios de estudantes do Ensino Superior em ensino remoto são tema de trabalho que ficou em 2º lugar no II Prêmio Não Aceito Corrupção

Mais do que uma simples mudança de meio, o ensino remoto emergencial, improvisado em decorrência da pandemia de Covid-19, trouxe uma nova série de desafios para os professores e estudantes. As câmeras fechadas nas salas virtuais, transformaram a atenção em uma incógnita, são poucos os que abrem o vídeo ou os microfones para interagir. Esse cenário piora no momento das avaliações, agora que a internet é o espaço onde são realizados – e, à distância, seu uso não pode ser controlado.

Ciente de que a corrupção não é exclusiva aos grandes desvios, Lidiane Tereza Fagundes Miranda, graduada em Ciências Contábeis e aluna da pós-graduação da PUC Minas, ficou atenta ao comportamento de colegas durante a realização de exames em que os docentes pediam que fossem realizadas de forma individual e sem consulta a fontes externas.

“Era bastante incômodo, pois estávamos estudando justamente compliance, ética, integridade, e os colegas ficavam fazendo consultas, me mandando mensagem, até ligando”, conta Miranda.

Dessa percepção, nasceu “Corrupção no ensino remoto na Educação Superior durante a pandemia do Covid-19 e a percepção de justiça dos alunos” (acesse aqui), projeto que levou o 2º lugar na categoria Academia do II Prêmio Não Aceito Corrupção.

Com orientação de Ana Carolina Vasconcelos Colares, professora assistente do departamento de Ciências Contábeis da PUC Minas, foi aplicado um questionário sobre temas como consultas a materiais e a terceiros durante as avaliações online. No total, foram coletadas respostas de duzentos estudantes de Ciências Contábeis de diversas universidades do país.

Constatou-se que 72% dos estudantes já incorreram em alguma corrupção acadêmica através de consultas a materiais da disciplina, internet e colegas durante a realização de provas. Já 52% dos respondentes acreditam não ser indevida a consulta à materiais da disciplina, mesmo que as orientações da avaliação sejam para que não haja qualquer consulta.

“Parte das justificativas para essas pequenas corrupções foi a de que, no mercado de trabalho, eles podem consultar qualquer fonte. Quando as pessoas cometem corrupção, elas tendem a racionalizar a situação, tentam explicar algo que não é correto. Eu acho que os professores devem levar em conta as mudanças para pensar no ensino, mas a partir do momento que as consultas são vetadas ao aluno, essa decisão deve ser respeitada”, constata Miranda.

Colares, também doutoranda e mestre em Contabilidade e Controladoria pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), comenta essa nova experiência de ensino. “Nem sempre sabemos ao certo se a nota do aluno é justa ou não, principalmente em relação àqueles que seguem as regras corretamente. Desta forma, do ponto de vista pedagógico, isso atrapalha bastante, pois nos sentimos inseguros quanto a esse processo de ensino na ótica da avaliação do conhecimento”, afirma ela.

Os resultados da pesquisa também foram submetidos a uma versão adaptada da Escala de Percepção de Justiça Acadêmica. Na avaliação do artigo, o gênero feminino e os estudantes que apresentam bom desempenho acadêmico possuem uma maior percepção de justiça, sendo que os alunos que julgam consultas a fontes externas como atos de corrupção tendem a avaliar como mais injustos os fins alcançados durante o ensino remoto.

“Ao debater sobre o conceito de corrupção e trazer essa percepção para o ambiente acadêmico, conseguimos provocar os estudantes a fazer uma reflexão e uma autocrítica mais realista sobre essa questão”, aponta Colares sobre a importância do projeto. “O ato de consultar outras fontes durante uma avaliação é, além de errado, uma autossabotagem no processo de aprendizagem do aluno que não está aprendendo desta forma e isso também poderá atrapalhar o seu desempenho profissional”.

É uma situação nova, mas há alternativas para que essa realidade – ainda longe de acabar – cause menos danos à aprendizagem. Nas respostas abertas do questionário, Miranda recebeu vários desabafos sobre os malefícios do ensino remoto no crescimento dos alunos. “Não era exatamente o que eu precisava para o trabalho, mas abriu minha visão. Renderia bons estudos para a área de Educação”, reconhece ela.

Na visão de Colares, demandar a presença ativa dos estudantes é um primeiro passo para inovar. “Isso pode ocorrer por meio de discussão de estudos de caso, aplicação de projetos práticos, enquetes com uso de aplicativos, apresentação de trabalhos etc.”, conclui. “Menos aulas expositivas e mais aulas que demandem a participação dos alunos”.