Luis Erlanger

25 de agosto de 2017 | 18:29

O Brasil não precisa de heróis – Luis Erlanger

É impressionante a quantidade de oportunidades que o Brasil já teve, desde o fim da ditadura militar, de rumar para uma democracia efetivamente representativa, com Estado de Direito pleno e a serviço do cidadão – e não o contrário –, que acabaram fracassando por armadilhas do destino (como a prematura morte de lideranças políticas), incompetência ou corrupção.

O próprio processo de transição do regime militar para o democrático, “lento, gradual e seguro”, acabou impedindo uma ruptura real com o sistema vigente, de exceção. A reconquista de liberdades foi mais do que desejável e louvável. Entretanto, mantiveram-se os vícios na montagem dos três poderes e, por tabela, na administração pública. Consequentemente, também no uso do chamado dinheiro público.

Até mesmo muitos protagonistas – pessoas e corporações – desse metódico saque são os mesmos nos dias de hoje. Tanto no lado empresarial quanto na política. Ainda que haja renovação de gerações, as regras do jogo sujo permanecem inalteradas, até depois de repetidos escândalos em proporções inimagináveis e a um grau de promiscuidade que ronda a psicopatia.

A grande chance foi na reforma constitucional de 1988, a maneira mais pacífica de se promover ruptura do sistema, mexendo nas alcunhas do nosso atraso, que vão desde uma reforma política honesta à revisão do pacto federativo, além de algumas poucas outras mudanças para valer, que radicalmente mudariam este cenário.

Da prometida Constituinte de Tancredo, veio uma colcha de retalhos de Sarney, cujo mal maior foi ser construída para o parlamentarismo, prevalecendo, ao final, o presidencialismo. O Brasil é inadministrável com essa enorme Carta Magna Frankenstein.

O Judiciário apareceu recentemente como tábua de salvação, mais especificamente o Ministério Público. Mas este poder, como se vê, também é refém das piores práticas da vida pública. Dentro dele, o MP, que é mesmo nosso indômito guardião da lei, sem medo dos poderosos, às vezes peca pelo excesso.

Nem vale aprofundar pelas experiências de governos banhados na esperança em “salvadores da pátria”, que se apresentaram como capazes de mudar o modelo. Mesmo os bem-intencionados capitularam, seduzidos pela preservação do poder. Isso tem um preço, que inevitavelmente acaba sendo pago pelo cidadão.

Em “Galileu Galilei”, de Bertolt Brecht, diante da fraqueza de seu mestre, o discípulo Andrea fustiga:

– Infeliz do povo que não tem herói.

Galileu o repreende:

– Infeliz do povo que precisa de heróis!

O Brasil não precisa de heróis. Precisa construir um povo, uma sociedade e mesmo uma elite que lutem por seus direitos de cidadania. Como o de não aceitar corrupção.

Luis Erlanger
Jornalista e escritor.