Instituto Não Aceito Corrupção

Associação civil, apartidária e sem fins lucrativos.

18 de fevereiro de 2021 | 10:15

Educação e política no mundo dos games

O jogo vencedor do II Prêmio Não Aceito Corrupção é guia para entender o funcionamento da estrutura de poder no país

Há tempos que os games deixaram de ser sinônimo de um “divertimento alienado” para crianças e adolescentes. Eles estão inseridos no cotidiano de várias esferas da sociedade em diversas plataformas – e com muitos caminhos a serem desbravados. “Antenou: seu Guia Político Gamificado” é um desses experimentos que deu muito certo.

O aplicativo, desenvolvido por Elaine Cruz e Morgana Galamba, estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), venceu o II Prêmio Não Aceito Corrupção, na categoria Tecnologia, ao apresentar a política de forma didática e estimular o voto consciente.

A ideia central proposta no game é que o jogador navegue por três mapas diferentes para conhecer os poderes municipal, estadual e federal. Em cada um deles, ele deve explorar a região, conversar com as pessoas e, a partir dos problemas que encontra – desde um buraco na rua, até a necessidade de elaborar novas leis educacionais –, entender quais as responsabilidades e capacidades de cada cargo político. Pelo caminho, o usuário ganha moedas que desbloqueiam conceitos como caixa 2, candidato laranja e quociente eleitoral.

Cruz, graduanda do curso de Ciência da Computação, e Galamba, de Engenharia da Computação, são ambas apaixonadas por games e educação, e viram no formato uma forma de contribuir para a conscientização dos cidadãos no país.

Não é o primeiro projeto que realizam juntas. “A gente faz parte do laboratório Apple Developer Academy da UFPE, e nosso primeiro projeto em grupo, com mais duas pessoas, foi o ‘Pelejo’, um aplicativo que gamifica um trecho do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos”, explica Galamba.

Para Cruz, ter podido desenvolver o “Antenou”, permitiu-lhe consolidar sua paixão pela extensa trajetória de desenvolvimento de um jogo, que passa por etapas como a ideação, criação de artes e prototipação. “Podemos fazer coisas muito divertidas e que possuem um impacto social”, explica a estudante.

Como as vencedoras decidiram que não poderiam ficar de fora do prêmio já no período de prorrogação, o game só chegou até a fase de protótipo – apenas com uma demonstração passo a passo do que é possível no cenário da esfera municipal.

“Uma grande dificuldade foi encontrar plataformas para prototipação de jogos, então acabamos optando pela Figma, uma ferramenta para apps”, detalha Cruz.

Um jogo é um produto muito complexo, porque deve sempre considerar que cada usuário vai tomar caminhos diferentes, até mesmo imprevisíveis. Portanto, essa primeira etapa é fundamental para entender quais caminhos a programação deve tomar.

“É preciso ver como a ideia vai ficar, tentar testar com pessoas em uma interface menos rebuscada antes de trabalhar no código”, explica Galamba. “Depois que você começa a desenvolver, mudanças simples podem demorar”.

Esses saberes técnicos se combinaram, por sua vez, com as diversas dúvidas que as duas tinham sobre as diferenças entre os cargos políticos e o funcionamento de cada esfera de poder. “Foi muita pesquisa em textos e vídeos, e vários rabiscos por duas madrugadas para decidir como trazer tudo de forma mais digerível para as pessoas”, comenta Cruz.

A dupla não imaginava a repercussão que teria o “Antenou” – desenvolvido em apenas quatro dias –, mas criaram muito afeto pela criação. O desafio agora é conciliar os outros projetos dos quais participam na universidade.

“[O “Antenou”] é uma ideia complexa, precisamos de tempo, recursos, de um designer, mais pessoas. Estamos ainda em um processo de assimilar tudo que está acontecendo para nos planejarmos melhor”, afirma Cruz.

Qual seja o futuro do aplicativo, a iniciativa das estudantes traduz uma importância política, não só por propor a conscientização de forma lúdica, mas também por demonstrar a importância das mulheres no campo da tecnologia – ainda com uma presença masculina muito forte.

“Sempre tive essa sensação de precisar me provar capaz”, diz Galamba, ao lembrar das poucas meninas que encontrou na sala de aula da faculdade. “Somos poucas, mas estamos aqui para mostrar que existimos e incentivar mais mulheres. É bem importante ganharmos o prêmio, fazer parte de comunidades e até atrair meninas que estão na escola e ainda só não foram apresentadas a essa área”.