Luiz Felipe Pondé

30 de agosto de 2017 | 9:22

Corrupção seletiva – Luiz Felipe Pondé

Na época da queda da Dilma, o PT acusava seus acusadores de terem uma postura seletiva em relação à corrupção. O PT tinha razão, mas não pelos motivos que moviam sua análise.

As pessoas sim parecem ter uma atitude seletiva em relação à corrupção (compreendida aqui em termos de senso comum, como, por exemplo, aceitar dinheiro em troca de tráfico de influência). A matéria transcende fatores éticos, políticos e sociais, e tocam o campo cognitivo.

O relativismo cognitivo na moral é fato. Fato este movido pelo que na cognição é alheio à avaliação “puramente” racional. Aquilo que, em matéria científica, o epistemólogo Imre Lakatos chamava de conteúdos extra racionais. Lakatos dizia que há o método científico racional interno ao “rational belt” (cinturão racional), e há o conteúdo externo ao cinturão racional: cultura, afetos, interesses políticos e econômicos, heranças de hábitos e costumes que, como dizem os americanos, “die hard” (é duro de matar).

Se passamos dessa discussão “meramente” epistemológica para os âmbitos político e moral em si, a consequência seria que sim, para além das intenções ética racionais, mais marcadamente deontológicas (kantianas), o comportamento humano em relação à corrupção é sim ambivalente e seletivo.

A dupla afirmativa acima (sim, sim) deve indicar a força do argumento em favor do cuidado para com todo discurso de condenação “purista” da corrupção. Todo cuidado é pouco quando se fala de conceitos que envolvem o ambiente moral, falho, por excelência, na experiência humana concreta.

Luiz Felipe Pondé
Filósofo e escritor.