Alberto Pfeifer

18 de setembro de 2017 | 15:12

Corrupção: o mal do século – Alberto Pfeifer

A dimensão global da corrupção talvez seja a maior ameaça contemporânea à humanidade. A corrupção tende a costurar redes de ilícitos associados, de caráter transnacional, que se aproveitam da dificuldade de coordenação interestatal. Tal qual uma corporação multinacional, a corrupção enseja a formação de cadeias globais de (des)valor. Constroem-se sofisticados esquemas de lavagem financeira e produtiva de recursos, de complexa identificação e combate no plano internacional: os agentes de repressão são nacionais; o crime, é transnacional.

Todo e qualquer ato corrupto é em si deletério e contribui para a desconstrução do processo civilizatório. A propina paga a um policial de trânsito ou o imenso caixa dois do partido político viabilizam, por meio de um labirinto escuro e fluido disperso pelo mundo, o terrorismo, o narcotráfico e a degradação ambiental, como bem demonstra Moisés Naim em “Ilícito”. Com o avanço tecnológico, mais intrincado fica o quadro, tanto em termos de oportunidades delituosas, como no que se refere aos instrumentos de combate. Exemplo disso são os recentes episódios de sequestros de computadores e utilização criminal de criptografia monetizável, os chamados “bitcoins”.

Corrupção, como fenômeno deletério, é uma agenda nova no sistema internacional. Durante a Guerra Fria, corromper era considerado um modo suave e benigno de cativar afinidades políticas. Estados Unidos e União Soviética, secundados por seus aliados, praticavam corrupção em escala industrial, aliciando ditadores pelo mundo em desenvolvimento. De fato, numa abordagem sanitarista, pareceria menos pior granjear lealdades por meio de ouro do que pelo chumbo: moedas em vez de balas. A justificativa a um espúrio conceito de “corrupção benigna” desvaneceu-se com o fim da polarização EUA/URSS. Abriu-se caminho para o combate à corrupção entrar na agenda das organizações intergovernamentais, das corporações multinacionais e das organizações não-governamentais, para o bem da sociedade global.

 

Alberto Pfeifer
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo