Davi Depiné

Defensor Público do Estado de São Paulo

05 de março de 2018 | 14:53

Mudança de hábito

O colunista do jornal Folha de São Paulo, Hélio Schwartzman, em 28 de maio de 2009, escreveu em sua coluna um interessante artigo, intitulado “Fertilizando a Indignação”, que acabei guardando em minha coleção de textos.

Neste já antigo texto, o articulista aborda um episódio do Parlamento britânico que ensejou a renúncia do então presidente da Câmara dos Comuns, em virtude do uso abusivo de verbas de gabinete. A partir desse fato, Scwartzman discorre sobre a psicologia das relações sociais e o fato de que desvios de conduta supostamente mais singelos acarretam maior furor do que desmandos mais complexos, com valores de maior vulto, além de expor a notória diferença comportamental em alguns países, quando detentores de cargos públicos são “pegos com a boca na botija”.

Uma explicação que sempre ecoou para justificar a inércia frente aos escândalos que se sucediam em território nacional envolvia a formação cultural de seu povo, fruto de uma colonização supostamente mais complacente com os desmandos de quem estava próximo ao poder central, tornando-nos, assim, reféns de uma indiferença congênita.

Mas, como ressalta o colunista, “nós, brasileiros, não apresentamos maior liberalidade para com a ladroagem porque a leniência está inscrita em nosso sangue ou porque o sol tropical nos frita os miolos, cegando-nos para malversações. É claro que, de algum modo, nossa cultura é mais tolerante para com essas coisas, mas desconfio de que o seja apenas porque tem sido. Trocando em miúdos, existe um forte componente inercial, que poderia deixar de existir se nos empenhássemos um bocadinho mais em punir quem tenha sido apanhado em flagrante”.

A complacência com a corrupção, ao invés de configurar uma profecia que se autocumpre, calcada em um suposto destino traçado séculos atrás, deriva de nossa própria acomodação, do desligamento do farol da indignação e de uma rebaixada autocrítica.

E embora muitos se regozijem com o aspecto cênico das recentes prisões de políticos e empresários, tão ou mais importante do que a segregação de responsáveis por malfeitos é a efetiva mudança comportamental, que se espera tanto de quem lida com a coisa pública, quanto com o próprio público. A compreensão de que a corrupção é uma enorme engrenagem, que se movimenta a cada ato que importe em uma vantagem injusta, ainda que envolva a mera atitude de compra indevida de uma meia entrada ou a de estacionar irregularmente em uma vaga reservada, é fundamental para que esse desejo de um país mais probo, justo e menos desigual, não pare apenas na retórica.