Eugênio Bucci

Jornalista e professor da USP, articulista do jornal O Estado S. Paulo e da revista Época

02 de abril de 2018 | 16:34

Fake News e corrupção nas eleições de 2018 – Eugênio Bucci

INAC – O que esperar das propostas de combate à corrupção dos candidatos de 2018? Como este tema estará presente na eleição?

O que de melhor podemos esperar das propostas dos candidatos em relação ao combate à corrupção nas eleições de 2018 é que elas combinem duas necessidades inadiáveis.

A primeira delas é, evidentemente, dar prosseguimento aos aprendizados que as instituições brasileiras já tiveram em relação aos métodos de combater, investigar e punir as práticas de corrupção. Esses aprendizados conjugam episódios de erros e outros de sucesso, principalmente agora com a operação Lava Jato. A segunda necessidade tem a ver exatamente com os erros cometidos pelas autoridades encarregadas de investigar e julgar os crimes de corrupção. Essa necessidade, também ela inadiável, é a necessidade de conter as práticas abusivas. Por vezes, as autoridades incorreram em intimidações discutíveis ou mesmo condenáveis. Juízes de boa-fé, inclusive, já reconheceram alguns desses erros.

Combater a corrupção é uma necessidade, vale repetir, inadiável para a democracia brasileira. Nesse sentido, não pode haver retrocesso ou tentativa de proteger corporações ou agentes políticos que já se encontram sob investigação ou mesmo sob julgamento. O Brasil precisa atingir um ponto de equilíbrio sem fazer concessões nem a corruptos nem a autoridades que preferem métodos prepotentes que, por definição, são métodos antidemocráticos.

INAC – Qual é o compromisso que os partidos políticos devem assumir para ajudar a combater a corrupção?

O compromisso dos partidos políticos deve ser o compromisso com a transparência da vida partidária em primeiro lugar — e compromisso com a lei, dentro dos marcos democráticos, para combater as práticas de corrupção. Nesse ponto, a demagogia é perniciosa e deletéria. Os discursos contra a corrupção têm o seu papel, é claro, mas, sozinhos não dizem grande coisa. E o nosso problema é que os partidos são os primeiros a fazer discursos inflamados e moralistas, mas são os mais resistentes a investigar os respectivos casos de corrupção. A partir de agora, os partidos terão que mostrar serviço e tomar a iniciativa de investigar profunda e radicalmente os casos de corrupção que envolvem os seus filiados ou dirigentes. É disso que mais sentimos falta. Os partidos parecem ser contra a corrupção e os crimes de desvio de recursos públicos quando os suspeitos são de outros partidos, mas silenciam quando os casos de corrupção envolvem os seus próprios integrantes. Ou isso muda ou a população continuará a não levar a sério a palavra dos políticos.

INAC – As fake news estão preocupando diversas instituições pela influência que podem ter nesta eleição. Como evitar que as notícias falsas se propaguem?

As notícias fraudulentas estão fazendo estrago em várias democracias do mundo. Até aqui, quem mais se saiu bem em neutralizá-las foi a França que, durante o processo eleitoral, conseguiu reunir instituições jornalísticas e esforços da sociedade civil para desmentir as mentiras que mais se propagavam nas redes sociais.

Em outros países, no entanto, esses relatos mentirosos e mal intencionados conseguiram provocar distorções nos processos decisórios próprios da democracia.

O Brasil terá que achar soluções para se proteger disso, mas não deve, em nenhuma hipótese, pretender organizar formas estatais de censura ou de filtragem prévia dos conteúdos que circulam nas redes sociais ou na internet. Soluções ligadas à censura, além de não resolver, podem piorar os problemas causados pelas notícias fraudulentas.

A única solução viável para isso é ampliar a intensidade do debate público por meio de organizações preparadas para desmentir relatos elaborados com a intenção de confundir o público. Lembro que esses relatos são produzidos por núcleos clandestinos que tentam se passar por redações profissionais e, assim, tapear a sociedade.

O público precisa ser alertado para o fato de que notícias fraudulentas, ou fake news, não são como notícias imprecisas produzidas por veículos da imprensa profissional. Fake news são outra coisa. As redações profissionais e íntegras podem cometer erros, mas depois se corrigem. Notícias fraudulentas são completamente diferente. Elas não são produzidas por jornalistas profissionais que trabalham em redações conhecidas, que atuam publicamente, abertamente, com métodos transparentes. As fake news são relatos produzidos por núcleos clandestinos ilegais disfarçados, quer dizer, núcleos que tentam parecer que são o que não são.

Isso significa que o principal critério para separar uma notícia fraudulenta de uma notícia normal, dentro do debate democrático, é o lugar de origem desse conteúdo.

No mais, quanto mais liberdade houver para contestar e desmentir esses relatos fraudulentos, mais possibilidade teremos de neutralizar os efeitos das fake news.