Glauco Costa Leite

Juiz de Direito do Tribunal de Justiça de São Paulo e doutorando em Direito Constitucional pela USP

26 de abril de 2018 | 17:03

E agora, José? – Glauco Costa Leite

“E agora, José?”

A provocação de Carlos Drummond de Andrade tem total cabimento no claudicante cenário político atual.

Os grandes partidos políticos têm seus próceres envolvidos em graves escândalos de corrupção, sendo que muitos deles são investigados, alguns denunciados e outros estão condenados. Investigação interna nos partidos? Raríssimo. O que se vê é proteção explícita ou silêncio eloquente sobre as acusações. Os partidos dificilmente abrem procedimento de investigação interna em face de seus proeminentes acusados, exceto, é claro, quando se tornam delatores.

O que nos resta então para as eleições gerais de 2018, em que o povo é chamado a escolher os membros do Congresso Nacional, a Presidência de República e os Governadores de Estado?

E agora?

Aceitar que a nós cabe apenas encontrar os “menos corruptos”? Permanecer na ótica maniqueísta de nós e eles, quando o sistema espúrio que irrigou as campanhas e promoveu a corrupção de partidos de todas as colorações ideológicas e políticas é o mesmo?

Triste da nação que aceitar que não há outra saída para esta lógica. Aceitar que aqui sempre se roubou, desde Cabral (aquele, não esse…), e que será sempre assim. Reconhecer que, no fundo, estamos fadados a buscar também o nosso jeitinho, pois o Brasil é o país em que só os espertos sobrevivem.

Não! Democracia dá trabalho. E muito! Conhecer os candidatos idem. Analisar suas propostas, mais ainda. Pesquisar as acusações que pensam contra eles então nem se fala.

Compartilhar notícias em rede sociais sem saber da origem e da veracidade contribui exatamente para a proliferação de Fake News e informações enviesadas. A divisão maniqueísta, o nós e eles, colabora para tirar do foco o problema do sistema político atual, no qual os partidos de diferentes matrizes ideológicas se uniram para práticas pouco ou nada republicanas para dizer o mínimo, a ponto de juntos bradarem que “foi caixa 2, mas não foi corrupção!”, como se caixa 2 não fosse crime e sim uma aceitável conduta republicana.

Deve haver sim outro caminho. Não adianta reclamar que vivemos em uma cleptocracia e exatamente no momento em que temos a opção de renovar o Congresso Nacional, a Presidência da República e os Governos dos Estados, ignorar a oportunidade para depois simplesmente reclamar, como se o mundo político não fizesse parte de nossas vidas.

É hora de arregaçar as mangas e sim, discutir política, com respeito, dados, impressões, sem identificar quem discorda de você como um inimigo. Ridicularizar opiniões diferentes da sua mostra a inaptidão para o debate sério. Aprender a ouvir e argumentar racional e respeitosamente é dever de todo o cidadão em uma sociedade livre e pluralista. Colocar-se no lugar do outro idem.

Talvez essa aspiração seja excessivamente otimista e difícil de implementar. Mas se não assim, como? Pela força, violência e bala?

E agora José?