Luiz Flávio Gomes

22 de setembro de 2017 | 7:00

Corrupção derruba vice-presidente do Uruguai – Luiz Flávio Gomes

Uruguai é o país menos corrupto da América Latina, de acordo com o ranking de percepção da corrupção da Transparência Internacional (ocupa a posição 21). O Brasil aparece na posição 79.

No ranking de 2016 do Fórum Econômico Mundial (da Suíça), o Brasil ocupa o 4º lugar, ao lado do Paraguai. Nas primeiras colocações, estão Venezuela, Bolívia e Chade. Nesse caso, mede-se a corrupção efetiva (não a percepção dela).

O vice-presidente do Uruguai, Raúl Sendic, do partido Frente Ampla, acaba de ser derrubado (9/9/17). Usou cartão corporativo da empresa de petróleo (gastando cerca de 4 mil dólares) que ele dirigia (de 2008 a 2013) para pagar despesas pessoais. Também é acusado de gerar rombo estrondoso na estatal.

Se gerar rombo em estatal fosse regra inapelável no Brasil, dezenas de diretores e políticos teriam o mesmo destino do vice-presidente citado.

O ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, formulou quatro denúncias relacionadas com o fatiamento da Petrobras. Compete agora ao STF o processamento de todos os envolvidos.

Qual é a diferença entre os dois países?

A diferença é que o Uruguai é um país que tem corrupção (como todos os demais), enquanto o Brasil é uma cleptocracia (cleptos = ladrão; cracia = governo).

Os dois países menos corruptos do mundo (Dinamarca e Nova Zelândia) ostentam nota 90 no ranking internacional. 90 não é 100. Isso significa que todos os países têm corrupção.

Mas o Brasil é muito mais que um país corrupto: é uma cleptocracia, ou seja, um país governado e dominado por ladrões do dinheiro público que são apoiados por várias instituições (jurídicas, políticas, econômicas e sociais).

O Brasil é uma cleptocracia parasitária gerida pelo método mafioso. A cumplicidade com os agentes poderosos corruptos ainda é estarrecedora.

Quem derrubou o vice-presidente uruguaio? Não foi a Justiça. Não precisou chegar lá.

A queda decorreu do próprio partido (pelo seu Tribunal de Ética), seus filiados, a mídia, o presidente que o refutou, a população, a gritaria geral da sociedade civil. Leia-se: a consciência ética.

Se nossas instituições funcionassem bem, antes mesmo da intervenção do Judiciário, muitos diretores de empresas públicas e políticos envolvidos com a corrupção seriam expurgados da administração pública.

É para esse nível de consciência coletiva que temos que avançar, o mais pronto possível. Nosso atraso (político, econômico, educacional, civilizacional) tem que ser superado o mais rápido possível para que possamos começar a fazer parte das discussões mundiais do século XXI, centradas nos efeitos da globalização, na aceleração gerada pelas tecnologias da informação e da comunicação, na robotização e suas implicações com o mercado de trabalho, no uso disseminado do bitcoin, que é a moeda eletrônica já de ampla aceitação etc.

O Brasil demorou mais de um século para ingressar na 1ª Revolução Industrial do século XIX. Não podemos repetir esse erro e nos tornarmos uma nação de quinta categoria no plano da globalização.

Luiz Flávio Gomes
Jurista e criador do movimento “Quero Um Brasil Ético”.