Roberto Romano da Silva

Professor titular de Ética da Unicamp

29 de janeiro de 2018 | 8:00

A solidão da moral

Nada é mais assustador que uma consciência atormentada pelas suas crenças e atitudes pretéritas. O arrependimento, diz Spinoza “é a tristeza que acompanha a ideia de alguma ação que acreditamos ter sido feita por um livre decreto da mente” (Ética, IV). Segundo o filósofo, não surpreende que a tristeza resulte de atos “perversos” (pravi) e a alegria venha com os retos (recti). “Na verdade, isso depende, sobretudo, da educação (…) foram os pais que, ao desaprovar os primeiros e exaltar os segundos, acabam por fazer com que as comoções da tristeza fossem associadas a uns e as de alegria aos outros. O costume e a religião não são os mesmos para todos, o que para uns é sagrado, para outros é profano, e o que para uns é respeitoso, para outros é desrespeitoso. Dependendo de como cada um foi educado, arrepende-se de uma ação ou gloria-se por tê-la praticado”. Logo após essa lição de pedagogia, Spinoza discorre sobre a torpe arrogância, a “soberba que consiste em fazer de si mesmo, por amor próprio, uma estimativa acima da justa”.

Indivíduos ou grupos que assumiram certas doutrinas e se apossaram de postos dirigentes no Estado, na Igreja, nas associações civis, não raro são dominados pela soberba. Educados com a falsa ideia da própria excelência, exigem lacaios, não amigos ou concidadãos, não admitem críticas nem réplicas, tendem a se confundir com o divino. A soberba, marca dos piores ditadores, dobra espinhas e mata quem ousa discordar do poderoso. O erotismo do mando, como toda paixão, ignora limites religiosos ou morais. Ditaduras, não raro, são estupros consentidos de coletividades. A pessoa que as auxilia guarda a soberba, como se tivesse a razão no bolso, assassina corpos e almas acreditando agir livremente, quando na verdade é dirigida pelos mais torpes apetites. Escravos espalham servidão. Há um artigo meu sobre o tema, que ouso indicar aqui: “Os laços do orgulho, reflexões sobre a política e o mal” Revista Unimontes Científica” (clique aqui para ver).

Quando o regime a que serviram ou que os serviu cai por terra, os arrependidos acusam os companheiros de tirania e atenuam a própria culpa. É preciso conhecer os pressupostos de uma atitude moral, quando a sociedade sucumbe sob tiranias. A moralidade efetiva não mede seus valores pelos números de aderentes. Nela, a decisão vem do juízo e da vontade livres. Por tal motivo, o sujeito moral conhece a solidão na maior parte do tempo.

Assim, imaginemos um ser verdadeiramente moral durante o regime nazista ou sob Stalin. A maioria da população ou adere às palavras de ordem governamentais, ou por elas é conduzido pelo terror ou propaganda. Defender um setor perseguido pelo Estado é se colocar em minoria, de imediato. Recordemos os seres humanos cuja presença social era definida como “ariana”.  Eles tinham duas possibilidades de escolha. Ou aderiam aos milhões que exigiam a morte dos judeus e demais grupos étnicos, ou se levantavam contra. Conhecemos poucos nomes que ousaram seguir tal senda. Como Dietrich Bonhoeffer, um líder luterano de olhos azuis, foi levado à morte nos campos de concentração. Ele foi dito, pela imprensa oficial da Alemanha, como “traidor”. Também na URSS tivemos vários casos de indivíduos que poderiam lucrar com o regime, em termos políticos ou econômicos. Mas escolheram denunciar os abusos do poder. E terminaram seus dias na miséria, no exílio, ou no Gulag.

A moral rigorosa não recolhe aplausos, porque ela exige coragem acima do costumeiro. É por tal motivo que os grandes mestres da ética aconselham quem deseja seguir a via reta na existência. O primeiro ponto é bem escolher os amigos, fugir dos aduladores. As massas humanas tendem a reunir técnicos da lisonja, fugindo da honesta posição reta. Platão, Aristóteles, Plutarco (sobretudo no fantástico “De como distinguir o amigo do adulador”) mostram que a prática da virtude não carreia aplausos, mas apupos dos governantes e governados. Assim, um eficaz método para avaliar a própria moral, encontra-se na seguinte pergunta  : tal ato seria louvado pelas multidões? Caso positivo, a pessoa já tem um critério para saber que não está no bom caminho. Nada mais útil, na tarefa de pesar valores éticos, do que seguir o ensino dos cínicos, a seita filosófica  mais rigorosa em termos morais do Ocidente, caluniada por seus inimigos conscientes ou ignaros.  Refiro-me ao critério usado por Diógenes: “quando sou aplaudido pelos homens, tenho certeza de que falei algo tolo”.

A moral e a correta ética exigem, de quem as pratica, a coragem da solidão. E poucos estão dispostos a pagar o preço devido. Afinal, como dizia um intelectual que aderiu ao golpe de Estado de 1964, “é preciso sobreviver”. Não por acaso o grande Elias Canetti apresentou a sede de sobrevivência como matéria distintiva dos poderosos. Para guardar o poder, eles estão dispostos a quebrar todos os vínculos trazidos pelos valores. Spinoza diz que o direito natural é aquele que permite ao peixe grande devorar os pequenos. Democrata, fica bem claro em seu Tratado Político, que o único modo de controlar tal direito é os peixes pequenos se unirem, gerando uma força maior do que a movida pelo peixe grande. Mas para chegar a tal força é preciso a amizade entre os indivíduos, outro elemento raríssimo, tão difícil de ser achado quanto a coragem da solidão. Pensemos sobre tais paradoxos, vitais em nossos tempos movidos pelo marketing e pressões econômicas ou políticas das mais diversas matizes.