Eugênio Bucci

Jornalista e professor da USP, articulista do jornal O Estado S. Paulo e da revista Época

13 de novembro de 2017 | 1:00

A imprensa e o combate à corrupção – Eugênio Bucci

Nesta entrevista, o jornalista e professor da USP Eugênio Bucci, articulista do jornal O Estado S. Paulo e da revista Época, responde a perguntas do Instituto Não Aceito Corrupção sobre as relações entre o jornalismo – tanto na reportagem como nas páginas ou nos programas de opinião – e os esforços da sociedade democrática e do Estado de Direito para identificar, investigar e julgar os crimes dos que se apropriam indevidamente dos recursos públicos.

INAC – Na sua opinião, como a imprensa pode contribuir no combate à corrupção?

Eugênio Bucci – A imprensa pode contribuir no combate à corrupção cuidando, em primeiro lugar, dos seus próprios procedimentos. Os jornalistas e as redações profissionais de qualidade sabem que o modo como a informação é investigada, checada, apurada, relatada, editada e divulgada tem tudo a ver com a qualidade da informação. Se alguns desses procedimentos são negligenciados ou mesmo solapados, o resultado é um relato factual que não corresponde devidamente ao acontecimento. Isso acaba minando a base política que precisa ter lastro na verdade factual dentro da democracia. Uma informação jornalística precisa ter, portanto, segurança nos seus procedimentos. A imprensa que pretende denunciar a corrupção não pode, ela mesma, se deixar corromper, no sentido original da palavra, quer dizer, não pode se deixar corroer e se deteriorar nos seus métodos. Essa é a primeira de duas observações que eu quero fazer.

A segunda observação tem a ver com o foco da atividade jornalística no cenário em que a corrupção é percebida pela sociedade como um problema tão grave. A apuração precisa ser sistemática, mobilizando a complexidade necessária para decifrar os meandros hoje ultrarrebuscados desse tipo de prática criminosa. Para tanto, é preciso investimento em técnicas, equipamentos e equipes de jornalismo investigativo. Nós temos avanços importantes na área do jornalismo colaborativo em que redações cooperam entre si, acima dos interesses de mercado, e isso também tem se revelado importante.

Ainda dentro dessa segunda observação, é preciso anotar que os debates de ideias em torno desse assunto esclareçam a opinião pública sobre a natureza da corrupção. Ela é por definição um sintoma. Ela decorre do Estado mal organizado, decorre de regramentos que deixam margens muito grandes para o poder discricionário de autoridades, decorre de relações primitivas de mercado e decorre do espaço enorme que o patrimonialismo encontra dentro da administração pública. A opinião pública deve receber constantemente esclarecimento. Deve aprender a ver com clareza que um país cujo principal programa seja acabar com a corrupção não chegará a lugar nenhum. A agenda de uma nação deve ser uma agenda positiva, não negativa. A agenda deve ser afirmativa em relação aos destinos a seguir. Dentro dessa agenda afirmativa e positiva, o combate à corrupção se faz necessário, mas como um apoio estratégico, como uma exigência contingencial, não como um fim em si. Combater a corrupção, assim como combater qualquer outro tipo de crime, pode ser uma meta imperiosa, mas nunca poderá ser entendida como a única e nem mesmo com a principal. Se a opinião pública tem essa clareza, ela sabe se proteger um pouco mais contra demagogos e populistas.

INAC – Você poderia fazer uma breve análise de alguns casos concretos desde o início da operação Lava Jato, por exemplo?

Eugênio Bucci – Em muitos episódios, desde o Mensalão até a Lava Jato, a imprensa teve participação. Essa participação, porém, é diferente da participação que a mesma imprensa teve no passado. Nós precisamos ter claro que hoje as autoridades do Ministério Público, da Polícia Federal e mesmo do Poder Judiciário, encarregadas de investigar e de julgar crimes de corrupção, estão muito mais aparelhadas do que no passado. Numa comparação com o caso Collor, por exemplo, nós vemos que hoje as autoridades dispõem de tecnologia para buscar e interpretar dados numa escala muito superior àquela de antigamente. Nós vemos que existem redes de cooperação entre autoridades de diversos países, o que facilita buscar recursos que evadiram, inclusive para paraísos fiscais. Isso dá mais agilidade às investigações oficiais. Hoje, as autoridades descobrem as informações críticas com muito mais velocidade, têm meios para saber de tudo isso antes dos jornalistas.

No caso Collor, no início dos anos 90, os jornalistas descobriram episódios que foram cruciais para os esclarecimentos dos crimes investigados. Eu cito, por exemplo, a Operação Uruguai que foi alegada pelo Collor já no final dos escândalos e que foi apurada por vários jornalistas, entre eles o Marcelo Rech, do jornal Zero Hora. A entrevista do Pedro Collor para o Luís Costa Pinto da revista Veja, deu uma guinada nas investigações. A revista IstoÉ revelou também o caso envolvendo o Fiat Elba e o motorista Eriberto França, que também ajudou nas investigações.

A imprensa cumpria um papel muitas vezes de ponta revelando informações que não estavam disponíveis e sequer eram do conhecimento de autoridades. Agora é um pouco diferente. Como há muito mais agilidade na polícia e no Ministério Público, há muito mais equipamentos, mais equipes e equipes mais bem treinadas na assessoria das autoridades das instituições encarregadas dessas investigações e desses julgamentos, a imprensa muitas vezes noticia aquilo que as autoridades informaram aos repórteres. Mesmo assim, em algumas ocasiões, ela assume papel relevante. Por exemplo, no caso das contas no exterior do ex-deputado e ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, jornais como O Globo e O Estado de S. Paulo conseguiram noticiar aspectos que contribuíram para as investigações.

Mesmo no caso da JBS, houve uma participação destacada da reportagem do jornal O Globo com um furo do Lauro Jardim. Ali o furo não levou uma informação à autoridade judicial porque a investigação já estava em marcha, mas o jornalismo revelou uma etapa dessa investigação e deu ao país o conhecimento de que ela estava ocorrendo, o que impulsionou os esforços para esclarecer as coisas.

INAC – Quais são os maiores desafios dos jornalistas nesse tipo de cobertura?

Eugênio Bucci – Há o risco presente de que a imprensa se acomode numa posição de simplesmente servir de caixa de ressonância para veicular revelações que interessam exclusivamente às autoridades policiais ou ao Ministério Público. Isso afasta a imprensa da equidistância necessária e a aproxima dos interesses de um dos polos do combate à corrupção. Há pelos menos três outros polos igualmente essenciais que devem ser considerados na cobertura. O segundo é o polo da defesa dos acusados. O terceiro são as instâncias do Poder Judiciário, que deve também merecer uma cobertura atenta e crítica. O quarto polo é mais difuso: são os múltiplos interesses dispersos na sociedade, as empresas, os partidos, os grupos e os indivíduos relacionados a cada um desses casos. De todo modo, num período em que as autoridades estão muito mais equipadas do que antes e contam com a colaboração internacional num grau que não existia antes, a imprensa deve também se lembrar de cobrir criticamente as investigações, não sendo, portanto, envolvida pelos interesses dos investigadores ou dos investigados.